Recebi uma carta de uma grande amiga que vive no estrangeiro e que reproduzo aqui.
Em 1983, era eu cooperante na República Democrática de São Tomé e Príncipe, recebemos a vista do então presidente português Ramalho Eanes, com quem pudemos trocar algumas palavras. No dia seguinte, um jornal português dava a notícia, fazendo menção a uma cooperante que lhe disse, no momento de lhe apertar a mão, “Senhor Presidente, não deixe morrer Abril!” – essa cooperante sou euzinha.
Hoje me espanto de ver que Eanes, companheiro de Otelo e dos outros Capitães, apoia a candidatura de Cavaco. É certo que só os imbecis não mudam de opinião mas, com todo o respeito que ainda tenho por esse homem que cumprimentei naquele dia, é preciso ser mesmo muito imbecil para ter mudado tanto!
Tive a sorte de ter nascido nesse jardim à beira-mar plantado e ai de quem, no estrangeiro onde vivo, me falar mal dele! Porém, tenho de admitir que o jardim se torna cada vez mais num campo árido. Árido de vontade e deserto dos ideais de mudança de há (apenas) pouco mais de 30 anos. Ainda subsistem alguns oásis nesse deserto e de vez em quando alguns param para matar a sede. Mas a maior parte abandona esse terreno que pode ser cultivado e fertilizado, por medo do trabalho que têm de realizar, esquecendo-se de que os frutos que ele poderia dar seriam o alimento dos seus filhos, preferindo dar a estes as areias nuas a perder de vista e difíceis de percorrer.
Mas, basta de imagens e passemos ao concreto. Um dos meus tios-avôs hasteou a bandeira em Coimbra a 5 de Outubro de 1910 e foi o primeiro Presidente da Câmara dessa cidade. Ele e dois outros irmãos foram presos pela PIDE no Tarrafal. Em casa do meu avó apareciam por vezes pessoas estranhas que coscuvilhavam em todo o lado. A minha avó fazia questão de lhes mostrar a imagem da padroeira de Coimbra... vá-se lá saber porquê, né?
Mais que não fosse, em honra desses meus antepassados, a minha visão do Mundo não poderia ser outra que aquela que tenho. A História não é feita para ser sabida de cor, mas para que se possa aprender com os erros anteriores no intuito de melhorar o presente e de construir um futuro equitável.
Por isso, quando vejo hoje esse personagem pretender vir a ser presidente da República Portuguesa, até me arrepio. Das duas, uma: ou não aprendemos nada, ou somos como aqueles três macacos, cegos, surdos e mudos... Elejam o Cavaco e não tarda o jardim tornar-se-à numa selva de lianas com os macacos todos a saltarem de ramo em ramo, correndo como loucos para comerem uma banana, enquanto que os “reis da selva” (os “Vampiros”?) se empanturram com cachos...
Cristina